Etnofarmacologia e educação ambiental são temas de pesquisa na Unicamp

por Rosi Cheque

Publicado pela Rede Brasileira de Educação Ambiental (REBEA) em 15/01/04:

http://www.rebea.org.br/ventrevistas.php?cod=512

 

 

Com o objetivo de melhorar a qualidade do ensino público e transformar a relação entre o homem e o meio ambiente, Priscila Fernandes, estudante de doutorado do Laboratório de Produtos Naturais do Departamento de Fisiologia e Biofísica – Instituto de Biologia – UNICAMP, em São Paulo, vem desenvolvendo desde 2002 o Projeto de pesquisa Etnofarmacologia e Educação Ambiental dentro do Projeto Fruto da Terra. Nesta entrevista a aluna fala da pesquisa e da visibilidade da EA nos setores industrial e ecoturismo.

A idéia de desenvolver o projeto surgiu dos pesquisadores do Laboratório de Produtos Naturais da Unicamp. “Pensamos num projeto de EA para difundir o uso de plantas medicinais e valorizar o conhecimento tradicional. Então, no segundo semestre de 2002, partimos em busca de um campo onde pudéssemos trabalhar nesse contexto. Procuramos um lugar que tivesse tradicionalmente o uso de plantas medicinais. Foi então que tomei conhecimento do projeto de educação ambiental Crianças da Paz, iniciativa da ONG Instituto Pedra Grande de Preservação Ambiental (IPEG), em Atibaia e no início de 2003 fomos integrados ao projeto Fruto da Terra (projeto da Secretaria de Educação de Atibaia, junto com o IPEG e
outros colaboradores que possui diversos projetos de educação ambiental)”, relata Priscila Fernandes.

Quando perguntada sobre a receptividade das pessoas para o desenvolvimento da pesquisa, Priscila responde: “As escolas, a Secretaria de Educação de Atibaia e os funcionários demonstraram uma vontade e receptividade inesperadas. Além disso, tivemos o cuidado de que esse projeto fosse construído junto com as professoras, e não imposto ao estabelecimento de ensino. Como qualquer trabalho enfrentamos barreiras e, infelizmente, as coisas acontecem num tempo diferente daquele esperado pela Academia, ou seja, a pesquisa em educação não segue o cronograma e as necessidades da pesquisa acadêmica. Era necessário respeitar o tempo da escola, o cronograma de horários, férias e feriados, etc”.

Segundo a pesquisadora, grande parte dos objetivos do projeto foi alcançada: “Conseguimos participar efetivamente da escola básica, conhecer sua realidade, e estabelecer um diálogo com as professoras. Nosso objetivo físico era que as escolas pudessem conviver com as plantas medicinais e, hoje, notamos que os canteiros estão floridos e fornecendo mudas para os pais dos alunos. Observamos que, com a implantação do projeto na unidade de ensino, as crianças conseguiram resgatar a história das plantas medicinais e de seu uso, já as conhecem e se interessam pelo assunto”.
 
Visibilidade da EA

Para Priscila Fernandes a EA vem se tornando cada vez mais presente no dia-a-dia das pessoas e, principalmente, nas empresas: “Percebo que a educação ambiental está sendo muito difundida na área industrial, de tecnologias limpas, além disso, há, também, os serviços de EA ligados ao ecoturismo – neste setor, acredito que a educação ambiental esteja mais visível”.

EA nas escolas

“Nas escolas a educação ambiental tem sido aplicada em projetos dispersos, justamente pela necessidade dela ser feita de forma a respeitar a realidade local e da unidade escolar. Eu não acredito que a EA deva ser uma forma de educação em massa, mesmo porque ela abrange uma gama muito grande de conteúdos, de conhecimentos, de mudanças de atitudes, que diferem de uma instituição de ensino para outra. Entretanto, não nos esqueçamos que ainda há muito trabalho a ser feito e a universidade e a pesquisa  precisam se envolver mais nas questões ambientais”, complementou Priscila.

Para a pesquisadora, a EA é de extrema importância porque é um pré-requisito para a sobrevivência do homem: “Acredito que essa nova perspectiva do que é desenvolvimento, do que é necessário, do que é qualidade de vida (que não é mais o consumo desenfreado), só vai acontecer quando aprendermos a lidar com as nossas demandas ambientais. Se não aprendermos a nos relacionar com a natureza, vamos  retroceder e jogar fora uma grande vantagem que adquirimos ao longo da evolução humana”.

Futuro

“Nós ainda ambicionamos muitas coisas. Uma delas é que o professor trabalhe como pesquisador e que o trabalho interdisciplinar aconteça não como um apêndice, mas que o assunto meio ambiente seja introduzido de fato em todas as áreas da escola. Por isso, queremos expandir o projeto de plantas medicinais a outras áreas, tais como nutrição, saúde pública e fisiologia. Entre janeiro e fevereiro, publicaremos uma cartilha de uso das plantas medicinais que estão nos viveiros das escolas”, concluiu Priscila Fernandes.

Projeto Fruto da Terra

O Fruto da Terra é um programa no qual disponibiliza projetos de EA dentro das escolas de ensino fundamental em bairros pobres na cidade de Atibaia, no Estado de São Paulo e que, por sua vez, envolve o plantio de plantas medicinais. Os alunos recebem orientações para desenvolverem noções de responsabilidade e consciência ambiental e aprendem a cuidar do viveiro medicinal. O projeto é desenvolvido pela Secretaria de Educação de Atibaia, em parceria com o Instituto Pedra Grande de Preservação Ambiental (IPEG), com a participação de colaboradores.

Uma pesquisa realizada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), revela que aproximadamente 80% da população mundial utilizam produtos de origem natural para combater problemas como pressão alta, queimaduras, gripe, tosse e prisão de ventre, entre outros. Já a Associação Brasileira da Indústria Fitoterápica (ABIFITO), diz que o setor movimenta anualmente cerca de R$ 1 bilhão em toda a sua cadeia produtiva e emprega mais de cem mil pessoas no Brasil.